Sobre os ataques ao festival de feminismo radical Só as Manas

Esta nota trata de acontecimentos relacionados ao Festival de Feminismo Radical Só as Manas, realizado no dia 31 de janeiro de 2015, por nós, da Coletiva Feminista Radical Manas Chicas, em São Paulo. Através dela, pretendemos abordar questões relativas às posições políticas da coletiva e, sobretudo, aos ataques recebidos, de partes diversas, principalmente durante e após o festival.

Com enorme adesão por parte de mulheres de todo o Brasil (quase 800 confirmações no evento do facebook e inscrições que precisaram ser encerradas após a entrega de mais de 250 formulários, preenchidos por mulheres de todo o país), o festival Só as Manas foi o maior evento nacional de feminismo radical até hoje, atingindo proporções que estavam além de nossas expectativas iniciais. Foram procurados muitos espaços que pudessem acolher o evento e, como uma de nossas membras construía o projeto do Cursinho Popular da ACEPUSP, consultamos a possibilidade de utilizar aquele espaço. Enfatizamos, logo de início, que no período do acordo de utilização não houve quaisquer questionamentos acerca do caráter do festival, sendo de conhecimento geral o fato de que somos uma coletiva feminista radical.

O feminismo radical é crítico à noção de identidade de gênero, porque não compreende o gênero como resultado de uma construção individual, ou como algo a ser reivindicado ou escolhido, mas sim como um sistema ideológico que serve à manutenção da exploração das mulheres e à continuação da dominação masculina. Entendemos a categoria mulher não como uma “identidade” social, mas como uma categoria política estabelecida a partir da posição que ocupa em uma relação de exploração específica entre grupos diferenciados e hierarquizados socialmente através de uma diferença sexual, e é assim que a reivindicamos em nossa luta. Dessa forma, modos de ser, pensar e agir construídos socialmente como “femininos” são utilizados de forma a viabilizar a exploração que sofremos, enquanto classe sexual, pelos homens. O pertencimento a essa classe, para nós, não é fluido ou movido por identificação com o que é construído socialmente como feminino, mas forjado no nascimento, após a constatação do sexo e através do longo e violento processo de produção do que é ser mulher no patriarcado – e que tem implicações sociais, psicológicas e físicas as quais não podemos negar. Lutamos pelo fim de distinções sociais baseadas em aspectos fisiológicos, e isso implica rejeitar o tratamento como identidade do que é, na verdade, imposição; como escolha do que é, de fato, socialização violenta.  É ainda nesse sentido que rejeitamos as noções de “trans” e “cis”, pregando essa última uma suposta conformidade, por parte do indivíduo, com o gênero e, consequentemente, naturalizando e essencializando padrões de gênero e feminilidade.

Portanto, ao contrário do que somos acusadas, não “genitalizamos” o feminismo, mas resgatamos os fatores pelos quais somos subjugadas – da capacidade reprodutiva, do acesso aos nossos corpos, do modo de produção doméstico e, portanto, da divisão sexual que a dominação masculina estabeleceu e transformou em hierarquia para que um grupo social se beneficiasse dos recursos produzidos por outro. Feministas radicais não inventaram tal divisão; o patriarcado o fez como forma de nos subjugar. Reconhecemos, contudo, as violências e a marginalização às quais pessoas que se reivindicam transmulheres e travestis estão sujeitas na sociedade, devido à identificação com elementos socialmente construídos como “femininos” e, por isso, odiados. Respeitamos os espaços de organização e as lutas que busquem medidas de proteção e direitos sociais a esses grupos, mas diferenciamos, como feministas materialistas, o que fundamenta as relações de dominação – a exploração material das mulheres – do que é reflexo disso. A violência de se adequar socialmente ao que deveria corresponder ao sexo biológico tem consequências diferentes para quem é do sexo feminino e do masculino. Dessa forma, não reivindicamos “gêneros” como pautas feministas a serem defendidas, mas sim buscamos a sua abolição – fim ao qual não é possível chegar individualmente, mas apenas através da luta coletiva das mulheres enquanto classe explorada e sujeito político do feminismo.

Partindo dessa concepção, o festival visava tratar dos temas vinculados ao que é ser socializada mulher, desde o nascimento, em uma sociedade patriarcal, e foi exatamente o que ocorreu. Ainda, visando à transparência política e à sanação de eventuais dúvidas, postamos no evento de facebook, no dia imediatamente posterior à sua criação, uma explicação adicional da posição do feminismo radical em relação à identidade de gênero (https://www.facebook.com/events/669177293193353/permalink/670788903032192/), afirmando, ainda, que o evento não recusaria a participação de pessoas trans que foram socializadas como mulheres (transhomens e pessoas não binárias nascidas mulheres), desde que se interessassem pela perspectiva radical. Uma vez que não houve objeções por parte do Cursinho Popular da ACEPUSP durante o processo de organização do festival, fomos surpreendidas quando, durante o cine-debate sobre prostituição, algumas de nossas membras foram convidadas para uma reunião emergencial, na qual representantes do cursinho popular da ACEPUSP nos informaram que emitiriam uma nota, alegando a sua oposição à nossa perspectiva transcrítica, a qual viria a nos expôr desonestamente, como se houvéssemos omitido nossas posições políticas em algum momento. Ainda, requisitaram a presença imediata de uma membra da coletiva que participava do cursinho e que estava impossibilitada de estar naquele momento, a fim de que ela se responsabilizasse pelo espaço, sob ameaça de termos de deixá-lo. Essa atitude foi incoerente, uma vez que não é exigida de outras organizações que se reúnem naquele espaço a presença de alguma/algum militante que esteja vinculada ao Cursinho, além de nos deslegitimar enquanto uma coletiva horizontal em que todas as membras detêm o mesmo nível de compromisso e responsabilidade entre si e para com o grupo, podendo qualquer uma de nós ter sido consultada; o Cursinho, por sua vez, que também se propõe a ser horizontal, tampouco dialogou com a membra que o compunha.

Na nota, afirmam-se favoráveis à auto-organização feminista, mas a auto-organização feminista radical, que prevê a presença apenas de mulheres designadas assim desde o nascimento, foi contestada. Negar-nos esse direito é uma atitude anti-feminista. No cenário atual, em que feministas radicais são constantemente intimidadas, o evento assumiu enorme importância para a união dessas mulheres, e os ataques que ele sofreu ilustram os esforços para impedir nossas reuniões e nos isolar, com intuito de diminuir nossa força política.

Além do Cursinho, transativistas e pessoas politicamente convergentes também se mobilizaram contra o festival. Mulheres (feministas radicais ou não) foram expostas e intimadas a justificar sua confirmação no evento em postagens virtuais; ameaças de rechaço público e de ataques com coquetéis molotov; além de tentativas de intimidação através de suas relações pessoais. Ainda que essas ameaças não sejam novas, e que há tempos estejamos sujeitas a ataques à nossa integridade psicológica e segurança física por parte de elementos desses mesmos grupos, cabe ressaltar que, a despeito das fortes divergências, jamais foi empreendida por nós a tarefa de tentar implodir ou boicotar eventos nos quais os sujeitos políticos do feminismo sejam entendidos de forma diversa à nossa; portanto, exigimos, minimamente, respeito aos nossos espaços. Uma de nossas membras, inclusive, foi exposta de maneira particular, teve sua militância desrespeitada, sob a crítica de tokenização. Afirmar que uma mulher negra só militaria em uma organização feminista radical como uma espécie de “cota”, sendo instrumentalizada por mulheres brancas, é profundamente racista, uma vez que nega a possibilidade de uma mulher negra pensar e decidir de forma consciente qual é o seu alinhamento político e como deve ser a sua militância. Ressaltamos que essa é uma acusação muito séria, e não pode ser feita de forma politicamente irresponsável, sem fundamentos e justificativas claras, com intuito de descaracterizar o feminismo radical e deslegitimar a militância da nossa Coletiva.

É importante frisar que, apesar de todos os ataques, o evento ocorreu normalmente até o fim, tendo como consequências a aproximação de militantes feministas de diversas regiões, o crescimento político e o fortalecimento do feminismo radical no país. Futuramente, esperamos organizar e participar de eventos ainda maiores e mais fortes.