Carta-manifesto

Somos uma coletiva feminista radical, pois compartilhamos das ideias de que, primeiramente, vivemos em uma sociedade onde a exploração e a dominação de homens sobre mulheres, enquanto classes sexuais, são estruturais. Direcionamo-nos às questões específicas das mulheres contra o sistema patriarcal; no entanto, nos posicionamos contra outros sistemas de exploração como o racismo, o capitalismo e o especismo (exploração de animais não-humanos).

Entendemos que a relação de exploração das capacidades reprodutivossexuais e laborais das mulheres pode ser verificada cotidianamente no mundo, como uma relação concreta. Podemos perceber que, em relação às mulheres, existe uma grande desigualdade ocupacional e de renda no âmbito do trabalho; as mulheres estão submetidas aos postos de trabalho mais precarizados, abrangendo a maior parte das pessoas que estão sujeitas ao trabalho informal, não-pago e mal-pago. Esta exploração também pode ser verificada através do trabalho doméstico compulsório, efetivado por meio das instituições do casamento e da maternidade, consistindo estas as principais obrigatoriedades de trabalho feminino, que são justificadas com base no “amor” da esposa/mãe. As mulheres estão, em sua maioria, sujeitas à dependência financeira, afetiva, psicológica e sexual do homem – o que, ainda hoje, nos revela a necessidade imposta de consumar casamento como contrato econômico. As mulheres também estão sujeitas à constante exploração reprodutiva, resultando disto o controle masculino do parto, do aborto e da contracepção, a violência obstétrica e a obrigação (naturalizada) de uma mulher ser mãe, bem como a esterilização forçada de mulheres, principalmente de mulheres negras e indígenas. Acreditamos que toda forma de violência sexual imputada às mulheres também é fruto de sua condição subordinada em sociedade. Consideramos  que o submissão da sexualidade das mulheres aos homens pode ser verificada na prostituição, no estupro (inclusive o estupro marital), na punição das mulheres devido a adultério, nas restrições à masturbação feminina, na obrigatoriedade de cumprimento de uma sexualidade heterossexual (e consequente negação/punição da sexualidade lésbica), na naturalização da “pulsão” sexual masculina como direito (inclusive do casamento consistindo num direito dos homens em ter este acesso sexual às mulheres) e na normalização forçada da mulher responder com prazer à violência sexual e à humilhação (como ocorre na pornografia). Toda forma de violência física às mulheres também pode ser compreendida como inerente a uma sociedade patriarcal, na qual podemos verificar o espancamento de mulheres, o feminicídio, a violência doméstica, o confinamento de mulheres e a privação de seus movimentos (por exemplo, exclusão das mulheres das ruas por meio do estupro como terrorismo) e às imposições estéticas que levam ao atrofiamento e confinamento das mulheres, como prática da mutilação genital feminina e de cirurgias estéticas.

Vemos o sistema de gêneros (masculino/feminino) como um dispositivo ideológico deste sistema de dominação, pois serve para dar respaldo, justificar e naturalizar a dominação sobre as mulheres: neste sentido, o gênero feminino é imposto às mulheres nos termos de classificá-las e de delas demandar um comportamento subordinado, passivo e condescendente. Aos homens é demandado comportamentos ativos, auto-afirmativos, expansivos e agressivos. Defendemos que este sistema de gêneros demanda muito mais do que somente atitudes de indivíduos, como se deles cobrasse uma simples “performance” ou “identidade”; ele mantém um sistema de dominação.

Para nós, mulheres não são um gênero, mas uma classe (sexual). Acreditamos na necessidade de mulheres se entenderem como um agrupamento socialmente e politicamente definido. Mulheres não são apenas uma categoria social mas, antes, uma categoria política, que deriva de seu papel em uma relação de exploração. A classe sexual é o que afirma a posição das mulheres em sociedade e o que compartilhamos enquanto grupo que possui vivências comuns, relativas a como fomos e somos um grupo dominado. Salientamos que são vivências comuns, mas não idênticas. Reconhecemos que somos, assim mesmo, um grupo heterogêneo. Por exemplo, as mulheres negras estão submetidas a duas diferentes formas de exploração que se articulam.  O conceito de classe não é para sugerir que todas dentro dela estão numa situação absolutamente idêntica, mas que algo nos diz respeito como um grupo.

Nos referimos a homens como uma classe pois acreditamos que devemos analisar o patriarcado estruturalmente, e não só segundo atitudes e comportamentos individuais. Somente homens como classe possuem poder político sistemático (baseado histórica, econômica e culturalmente) para explorar e oprimir mulheres. Enxergar tal caráter estrutural é o que define uma análise radical (que vai à raiz) do patriarcado.

A estabelecida demarcação de um espaço “privado” que, supostamente, não deve estar sujeito à intervenção política, é fundamental à exploração e dominação masculinas; demarcação essa que permite aos homens se apropriar das energias emocionais, laborais, sexuais e reprodutivas das mulheres. Tornar o pessoal político permite às mulheres reconhecer como uma face da dominação o que elas consideravam ser fruto de conduta individual ou de relações interpessoais.

Acreditamos que o desmantelamento da divisão entre público e privado implica a necessária problematização da ideia de consentimento, sobretudo no que concerne às relações heterossexuais – toda relação heterossexual envolve algum grau de violência, uma vez que há, inevitavelmente, uma hierarquia de poder. A heterossexualidade compulsória é a ferramenta que viabiliza, de forma mais imediata, a exploração das mulheres, garantindo o acesso sistemático dos homens às mulheres, o trabalho doméstico compulsório, a maternidade obrigatória, a dependência econômica, emocional e política destas em relação àqueles. Ainda, este processo operacionaliza a divisão e a competição entre as mulheres, impulsionando mais fortemente a identificação com homens do que com outras mulheres e dificultando que elas se compreendam enquanto classe. Nesses termos, a lesbianismo adquire um sentido político, seja essa vivenciada de uma maneira politicamente consciente ou não; as mulheres lésbicas apresentam-se como uma possibilidade de rompimento com o contrato (hetero)sexual e uma afronta ao sistema patriarcal. Porque existe uma coação social para que as mulheres se conformem à norma, podemos, nesse sentido, entender a sexualidade como socialmente construída e, portanto, também passível de desconstrução. Isso não quer dizer que a política feminista equivalha à ou se valide pela lesbianismo, ou que mulheres em relacionamentos heterossexuais devam ser culpabilizadas. Nenhuma mulher se beneficia ou obtém privilégios a partir de uma relação heterossexual.

Estas são as nossas diretrizes e perspectivas políticas as quais podemos esclarecer e debater em caso de dúvidas e questionamentos.

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