Problematizando a Marcha das Vadias

Primeiramente, é importante ressaltar que a Marcha das Vadias possui seu lado positivo. A visibilidade que a Marcha trouxe para o problema da “culpabilização da vítima” foi importante e, com certeza, não importa a roupa que uma mulher esteja usando, o culpado sempre é o agressor. No entanto, o modo como a Marcha das Vadias traz o tema é bastante problemático.

Sobre a utilização do termo “vadia”

O que define uma mulher “vadia” em nossa sociedade? Uma mulher que usa roupas sensuais, que se relaciona com vários homens, que é “fácil”… E o que é ser vadia de acordo com essa “nova ressignificação”? Ser vadia é ser livre para usar roupas sensuais (se quiser), livre para ficar com vários homens (se quiser) – enfim, livre para fazer suas escolhas. À primeira vista, é tentador reivindicar essa nova visão do que é ser “vadia”, porém, devemos questionar o que significa o atual feminismo estar pautando tanto o tópico da “liberdade individual”.
O feminismo, há muito, luta para politizar o campo pessoal, ao pontuar que as nossas vidas sexuais, os nossos comportamentos e as roupas que usamos devem ser compreendidos como escolhas feitas dentro de um sistema patriarcal, e não de um mundo livre. Entretanto, em especial nas últimas duas décadas, houve um avanço do liberalismo no interior do movimento feminista, que despolitizou o âmbito pessoal e retratou as escolhas como questões de liberdade individual. Assim, usar roupas sensuais, colocar silicone, fazer um filme pornô, ter fantasias sexuais com estupro, etc. são postas como escolhas livres do indivíduo, enquanto questionar o padrão de beleza, a sexualidade e outros assuntos que tocam o indivíduo (mas que fazem parte de uma cultura) é posto como ser contra a liberdade. O movimento feminista não deve condenar uma mulher por ela se depilar, usar roupas sensuais ou ficar com vários homens, mas dizer que ela está livre para fazer suas próprias escolhas sem localizá-las enquanto construções do sistema patriarcal é dar um tiro no próprio pé do movimento feminista.
Nesse contexto, a Marcha das Vadias, ao não problematizar essa concepção de liberdade, não questiona que estas “escolhas” são influenciadas pelo sistema patriarcal, que coage as mulheres a se vestirem e terem atitudes que mostrem que estão sexualmente disponíveis para os homens. Assim, a “nova versão” do que é ser vadia não vai contra o sistema patriarcal, pois ainda somos mulheres definidas pelo desejo e acesso masculino!

no-patriarcado-as-mulheres-não-são-livres.jpg vestida

A visibilidade da Marcha das Vadias na mídia

A cobertura que a mídia faz da Marcha das Vadias atribui demasiado foco aos corpos das mulheres e ao fato de que elas estão semi-nuas. A mídia, em geral, é extremamente machista e isso não é culpa da organização do evento, mas como é possível demandar que a mídia não objetifique as mulheres se a própria MdV faz isso?
A Marcha das Vadias utiliza várias imagens que objetificam as mulheres para publicizar o evento. A foto do lambe da MdV [1], por exemplo, mostra uma mulher nua em uma pose sexualizada com o escrito: “cobrando ou não, sexo não dá direito a agressão”. Essa mesma imagem poderia estar em um comercial de cerveja, ou em uma capa de filme pornô. Além disso, a frase não ajuda, por despolitizar o que é o sexo “sem agressão”, principalmente no que diz respeito ao sexo “cobrado”, ou seja, sexo com mulheres em situação de prostituição, que para nós constitui sempre uma agressão. [2]
Se as feministas sempre lutaram para serem ouvidas por suas palavras e não por seus corpos, por que isso deveria mudar? Acreditamos ser contraditório utilizar os corpos das mulheres com fins de transmitir ideias feministas, se parte da teoria feminista é que não utilizem os corpos das mulheres para transmitir ideias.

[1] https://www.facebook.com/photo.php?fbid=370886079683363&set=pb.240302076075098.-2207520000.1400513890.&type=3&theater
[2] https://manaschicas.wordpress.com/2014/05/18/prostituicao-exploracao-sexual-das-mulheres/

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4 comentários sobre “Problematizando a Marcha das Vadias

  1. Concordo com você, a despolitização do movimento feminista é preocupante. O individualismo é um fenômeno do Neoliberalismo e propicia a despolitização, entretanto a opressão feminina continua sendo um fato político e ignorar essa dimensão não tem sentido.

  2. Pingback: Feminismo Radical – idk

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