Basta de Heteronormatividade

Atualmente, o discurso corrente no movimento LGBT sobre a sexualidade segue, em linhas gerais, que se nasce com uma sexualidade definida geneticamente (logo, a homo, bi e heterossexualidade seriam, nesta concepção, características biológicas). Portanto, dado o argumento de que se trata de uma sexualidade imutável, a bandeira principal é pelo respeito à diversidade sexual. No entanto, essa forma de análise da sexualidade minimiza a importância da cultura (sistemas sociais) na construção   de nossos afetos, desejos e vivência da sexualidade, o que acaba por invisibilizar a heterossexualidade compulsória e seus objetivos políticos, principalmente em relação às mulheres.

Qual a relação entre a heterossexualidade compulsória e a exploração das mulheres?

O patriarcado é um sistema social no qual homens dominam e exploram mulheres em suas capacidades reprodutivas e de trabalho, assim como em sua sexualidade. Para que homens tenham controle sobre as mulheres, é necessário que eles tenham alguma forma de acesso aos seus corpos; e que a dominação seja vista não como uma hierarquia socialmente construída, mas como algo natural. Para se manter, o sistema patriarcal necessita que as mulheres estejam em contínua dependência dos homens (dependência afetiva, sexual, financeira…) – dessa forma, a heterossexualidade compulsória serve como instrumento de dominação, pois é o pressuposto tanto de uma coerção social das mulheres à feminilidade (gênero), quanto de instituições patriarcais como o casamento, a família nuclear e a prostituição.
LesbianidadeOu seja, a heterossexualidade compulsória serve como instrumento de dominação e de exploração das mulheres, ao garantir o acesso masculino a seus corpos, o que também demanda uma construção ideológica de feminilidade que fragilize as mulheres e que naturalize e justifique a hierarquia homem-mulher. A dependência das mulheres por homens implica, portanto, um afastamento e alienação das mulheres com relação a si mesmas e a outras mulheres; e é neste ponto que a lesbianidade é uma forma de resistência política, ao se opor à heterossexualidade compulsória através do reconhecimento, afeto e construção coletiva das mulheres em prol de si mesmas.
Dessa forma, implica-se que a defesa do discurso da diversidade sexual, ao colocar a heterossexualidade enquanto apenas uma das formas de sexualidade equiparáveis às outras (e não enquanto instrumento de dominação patriarcal) invisibiliza o caráter político da lesbianidade, já que neste viés esta seria também apenas uma orientação sexual, e não uma forma de resistência à dominação masculina; e não avalia que as violências contra lésbicas sejam de caráter corretivo e coercitivo contra todas as mulheres. Outra forma de invisibilização política da sexualidade é o posicionamento acrítico a favor do assimilacionismo de modelos hierárquicos (logo, heterossexuais) na comunidade lésbica, por exemplo, pornografia e sadomasoquismo, como se fossem práticas libertadoras, enquanto reproduzem, no âmbito tido como individual, uma estrutura política violenta às mulheres.

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