A Necessidade de Retornar ao Corpo e o Feminismo Radical

A autonomia e a integridade do corpo das mulheres é essencial à sua libertação. O corpo das mulheres tem sido utilizado como um campo de disputa do poder masculino, tem sido considerado uma propriedade, uma forma de obter recursos laborais, sexuais e reprodutivos. Essa apropriação se desdobra de diversas formas: através da instituição da família e do casamento, da prostituição, da pornografia, do controle masculino da contracepção/parto/aborto, da clitoridectomia, do assédio sexual, do estupro (inclusive estupro marital), da precarização do trabalho feminino, da violência doméstica, da necessidade imposta de ser mãe (entre outros). Assim que reconhecemos que todas essas formas constituem violência masculina sobre as mulheres, podemos dizer que o feminismo radical foca sua análise do corpo como um local primário em que se situa a opressão das mulheres, de forma que se deve enfatizar a necessidade de uma política que rompa com as condições dessa apropriação, e essa deve ser uma tarefa empreendida pelo feminismo. É uma política das mulheres para as mulheres.
No âmbito do corpo, a análise feminista radical se centra em dois aspectos fundamentais: de que “o pessoal é político” e de que é necessária uma crítica à noção de escolha pessoal.
Em primeiro lugar, é primordial problematizar a divisão público/privado sobre aquilo que é relativo às questões das mulheres. A abordagem que separa essas duas dimensões tem permitido que a exploração das mulheres seja coletivamente reproduzida sem que se analise seu caráter político. Indo na contramão, o feminismo radical acredita que aquilo que usualmente consideramos como algo simplesmente “pessoal” na verdade é formatado por relações de poder sistemáticas. Violência doméstica ou estupro marital, por exemplo, têm sido alguns dos temas que usualmente “escapam” da discussão política, porque vistos como restritos ao lar/à família, à relação “pessoal” homem-mulher. Nesse sentido, é importante entender o “pessoal como político” para compreender de que forma os corpos das mulheres são controlados. Somente dessa maneira poderemos trazer as formas de opressão às mulheres para o debate e alterar as estruturas sexistas de poder.
Em segundo lugar, a análise feminista radical acredita que a opressão ao corpo das mulheres não será colocada em xeque através do simples slogan inquestionado do “direito de escolher”. Claro, queremos que as mulheres tenham em suas mãos o direito de escolher se querem ou não ter filhos, por exemplo. Mas a questão reside também em questionar o valor das “escolhas” das mulheres sob um sistema patriarcal. Mulheres negras enfatizaram as limitações do conceito de escolha, salientando o fato de que, enquanto à maioria das mulheres brancas é negado acesso ao aborto (as que podem pagar vão a clínicas particulares), as mulheres negras são controladas através da esterilização forçada. Clamar pelo simples “direito de escolha” ao aborto nega o fato de que, para as mulheres negras, foi e ainda é uma realidade ter sua reprodução restringida, por políticas eugenistas e pela exploração econômica. Isso quer dizer que a “escolha” está determinada por um sistema relativo a quem controla esses métodos. Por isso a questão não é a simples escolha, pois é preciso ter análise de contexto. Nas mãos de quem reside esse controle da escolha? Ou então, queremos “escolher” dentro desse sistema em que nos encontramos? Queremos fazer escolhas dentro das variadas “opções” que nos fornecem a indústria farmacêutica, o bionegócio, a maternidade substitutiva, as políticas controlistas (misóginas e racistas), o poder médico masculino? Em outras palavras, queremos apenas escolher entre as variadas formas de apropriação patriarcal, racista e capitalista sobre o corpo das mulheres?
A tarefa, portanto, reside numa nova forma de analisar a condição das mulheres, desfazendo os mitos de que (a) não somos um agrupamento definido, (b) enfrentamos “problemas” apenas “pessoais” e (c) tais “problemas” podem ser resolvidos sem organização ou ação coletivas. É somente através desse enfoque que poderemos alterar as circunstâncias em que as escolhas das mulheres são feitas. O feminismo radical não se contenta com as mulheres poderem “escolher” entre os diversos padrões de como lidar com seus corpos que o sistema patriarcal coloca como opções, mas sim questionar a raiz do problema do sexismo, que é o sistema de dominação masculina. A intenção não é ter o simples direito de optar pelas condições dadas. Precisamos construir uma verdadeira autonomia para decidir sobre nossos corpos.

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